quinta-feira, 29 de março de 2007

Calça jeans

Ninguém entendia nada. Aquele alvoroço nas proximidades. Dezenas, depois centenas, e logo depois milhares de pessoas focavam seus olhares para aquele pedestal dourado que tinha surgido no centro de São Paulo da noite pro dia.

"Aquela que vestir essa calça jeans será a nova Rainha da Cocada Preta. Com direito a paparazzo, noivo jogador de futebol, plástica no nariz e tudo!"

Ninguém entendia nada! Só podia ser brincadeira. Repórteres chegaram para cobrir os fatos. Não demorou muito até que a primeira mulher se arriscou, subiu no pedestal e baixou as calças. Fez força, encolheu a barriga e nada. Desistiu. Veio a segunda, a terceira, e daí em diante. Magrelas, gordinhas, altas, baixas, ancas largas, cadeirudas e bundinhas murchas. Os homens ao redor faziam o maior rebuliço, afinal, cada tentativa era uma bunda de fora, coisa que não se vê com freqüência na Praça da Sé.

Todas tentaram mas nenhuma conseguiu. Mulheres viajavam de todos os estados para tentar vestir a fantástica calça - e aproveitar e dar uma passadinha na 25 de março. O tempo passou e o poder mágico do misterioso jeans, que nunca foi revelado, caiu no esquecimento.

Hoje a calça é vendida na Daslu por R$7500, em até duas vezes.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Isso é só nosso...

Nunca aconteceu
você e eu
ninguém viveu
e todo mundo perdeu
É o mais fácil de entender
mas não o que deve ser

Me ajuda, me abraça
sem medo, sem pressa
me chame, me peça
com jeito, com graça

A gente se quer e se gosta tanto
A gente não quer cada um no seu canto
Iria tão longe
seria perfeito
Você fazendo manha daquele teu jeito
A gente rindo de algo que eu tivesse feito
Eu com teu rosto descansando no meu peito
Vivendo esse sonho, aumentando nosso encanto...

Na hora de dormir, penso sozinho
e é simples entender tanto desejo
é uma delícia amar o teu carinho
e nada é mais gostoso que teu beijo

Pra mim é tudo tão claro, tão certo
Sentir tua alma de dentro, de perto
Matar a vontade mais forte que fome
Pois o vento que trouxe
teu cheiro tão doce
por mais forte ou furioso que fosse
O vento, ainda, sopra teu nome

domingo, 25 de março de 2007

Bate papo com o leitor

Apesar de não ser meu costume escrever textos diretos aos leitores, resolvi abrir uma exceção. Hoje fui colocar um texto novo no blog e parei pra pensar sobre quem são as pessoas que param para lê-lo. Sei que meu amigos mais próximo o lêem direto - ou sofrem as consequências - mas algumas pessoas que sequer conheço têm lido e comentado. Quem são vocês?

Pra ler um texto de um completo desconhecido na internet, parto do princípio de que você é, pelo menos, eclético. Adora novidades. Muitas vezes deve passar pela sua cabeça que que nada bom vem sendo produzido no mundo atualmente, não é? A produção musical, a cinematográfica - nem vou mencionar a televisão - todas elas vem caindo de qualidade. Sem falar na indústria pop que não precisou nem de meio século para ir de Beatles a Punk-Rock sem palavrão. Eu entro em desespero às vezes, em busca por algo bom e contemporâneo, e confesso que está difícil. E você, passa por isso?

Você tem um sonho maluco, que considera impossível, mas que tá sempre ali, te rodeando, te atiçando com possibilidades? Mas e o medo de arriscar, né? Não sei quantos de vocês têm medo de arriscar e quantos não, mas eu não acho que uma opção é mais certa ou nobre do que a outra. Existem pessoas que gostam de se arriscar, outras que não, e todas podem sentir coisas intensas, porém diferentes. Detesto aquele discurso de que todo mundo deve arriscar na vida pra vida ter graça, apesar de ter arriscado muito. Se você arrisca, deve ter um noção de limite parecida com a minha. Eu acho que toda vez que um ser humano é levado ao seu extremo, ao seu limite - seja de ódio, amor, exaustão, cansaço, dor, desejo, tesão, entorpecentes, bebedeira - ele aprende algo importante. Os que não aprendem geralmente se perdem na vida.

Acho que você é uma pessoa ligada em signo mas nem tanto. Gosta de coisas simples e de viajar, não? Tem vontade de conhecer o mundo. Aposto que você tem uma linguagem com seus amigos mais próximos que só vocês entendem e acham graça - e muitas vezes fazem papéis de louco por isso. Música, não sei do que você gosta, mas é intenso. Da música que você gosta, você gosta pra caralho, não é? É a melhor coisa do mundo! E tenho quase certeza que você tem um CD preferido pra uma pessoa preferida. Você repudia preconceito e deve ter uma visão bem peculiar quando o assunto é religião.

É isso, mais ou menos, que eu penso de você, leitor. É pra você que eu escrevo. E só o faço porque acho que tenho algo pra te dizer, algo que possa te fazer rir, se emocionar, pensar de uma maneira diferente, refletir sobre algum valor, enfim, algo que venha a acrescentar. Gostaria de conversar na mesa de um boteco com cada um de vocês, mas infelizmente ainda não posso. Enquanto isso seguimos a conversa dessa maneira, pode ser?

Aliás, deixo aqui meu MSN. Adoraria conhecê-lo:
oh_yeah_br@yahoo.com.br


Abraço!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Brincadeira de criança

- Ai Bob, adoro quando você me beija desse jeito.

- Você é uma delícia minha Barbiezinha. Vem cá, vem! Hmmmmm

- Ai, calma, assim eu fico sem jeito.

- Sem jeito nada, vem cá sua gostosa. Tira a blusinha, assim.

- O pescoço não. Dá arrepios. Hi hi hi.

- Isso, isso. Agora tira essa sainha. Isso, que gostosa.

- Agora é minha vez. Deixa eu tirar essas calças.

- Tira, tira tudo. Vai, cai de boca. Assim que eu gosto, Vai.

- Hmmmgrrhffm.

- Que foi querida, não entendi?

- Seu pau é uma delícia.

- Então continua vai.

- Agora me põe de quatro. Isso. Vai.

A baixaria continuou. Maria Luiza ficou horrorizada ao ver sua filha nessa cena. Algo devia estar errado. Não podia ser normal uma criança de 10 anos brincar de bonecas desse jeito.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Liberdade de Imprensa

Um terrível acidente na Avenida Paulista. Um ônibus se chocou contra um carro, no cruzamento com a rua Pamplona, ferindo 6 passageiros e, infelizmente, matando as 2 mulheres e as 4 crianças que estavam no Celta. Nossa repórter Kelly Kristina tem mais informações.

- É isso mesmo, Paula. Um acidente TERRÍVEL, TRÁGICO acidente aconteceu há pouco mais de uma hora aqui no coração da cidade de São Paulo. Os feridos já foram levados para hospitais da região, mas os corpos das vítimas fatais permanecem presos nas ferragens. Encontramos 2 homens que parecem ser os respectivos maridos e pais das vítimas e vamos tentar falar com eles.

A câmera focaliza dois executivos, de terno, um com cerca de 40 anos, cabelo grisalho, um pouco mais alto que o outro que aparenta uns 28, 30 anos. Eles se abraçam, o mais novo soluça e chora no ombro do mais velho que não esboça reação, apenas observa o carro retorcido, reduzido a pedaços de metal sem forma.

- Boa tarde senhor. O senhor conhecia as vítimas? A repórter aproxima o microfone dos dois, chamando a câmera.

Nenhum deles reage. O mais novo tenta formular palavras de desabafo, em meio ao seu pranto, mas nada se articula. "Close nele".

- Tivemos informações de que as vítimas seriam suas mulheres e filhos. Isso é verdade? - Pergunta ela aos dois.

O mais novo cai de joelhos em pleno asfalto, transtornado. Leva as mãos ao rosto, se desespera. O mais velho continua impávido. Policiais tentam dispersar a multidão de curiosos. "Esquece o tumulto, foca no chorão ali" Kelly sussurra para o câmera.

- Kelly, você já sabe as causas do acidente?

- Ainda não Paula, mas sei sim que a DOR que esses homens devem estar sentindo é sem precedentes. Acabam de perder as mulheres e os filhos. PERDERAM SUAS FAMÍLIAS NESSE INFELIZ ACIDENTE. Vamos tentar um depoimento. ESPERA, ESPERA, parece que temos um sobrevivente.

Ambos dirigem-se para perto do carro onde conseguem ouvir uma criança chorando. É impossível vê-la devido a posição do carro, de ponta-cabeça amassado contra a parede de uma banca de jornal.

- Parece ser um garoto, vamos tentar nos aproximar.

"Julian, é você? Aqui é o papai! Vai ficar tudo bem! Você tá bem?" grita o mais novo, buscando espaço entre as ferragens para tentar visualizar o garoto. O mais velho continua mudo. A criança grita de dor, chora muito. Diz que não consegue se mexer e sangra muito. Cada frase da criança é repetida pela repórter, incrivelmente, com mais dramaticidade ainda. Até que, finalmente, a criança não reage mais. O pai esmurra o carro gritando pelo seu filho até que os policiais o afastam.

- É muita emoção aqui Paula. Vamos tentar novamente conversar com o pai da criança. Senhor, como é ouvir os últimos GRITOS de SOCORRO de seu PRÓPRIO FILHO e dar toda SUA FAMÍLIA como MORTA numa manhã normal de segunda-feira?

O mais novo sequer percebe a presença da repórter. O mais velho, agora sim, reage, e desfere um soco no queixo da repórter que a nocauteia instantâneamente. A última imagem gerada do local do acidente é algo parecido com alguém pegando a câmera e jogando-a no chão.

Paula, surpresa com a interrupção da matéria, quase pega de surpresa pela câmera, em tom melancólico: "É.. realmente é muito triste que hoje em dia, depois de tantas lutas para um país mais justo, a liberdade de imprensa ainda receba repressões como essa. Aquilo não é um homem, e sim mais um monstro que freia e distorce a democracia e seus princípios. Esse foi o Jornalismo Já. Tenham uma boa tarde".


domingo, 18 de março de 2007

Os caminhos de hoje

Andando nesse meio
e sofrendo de azia
espero, anseio
por menos hipocrisia
de quem antes sorria
e hoje, sem freio
só faz devaneio
e só tripudia,
achando alegria
na dor do alheio.
Aflito, bloqueio -
me assusa a distopia -
e ouço a sinfonia
desse caminho tão feio.
Mas bem que eu queria
ir sem fantasia,
sem muito rodeio
e mais euforia.
É o que eu escolheria,
mas sigo minha via,
com o saco bem cheio
de gente vazia.


sábado, 17 de março de 2007

Pra quem só quer o belo

Trapos viram bonecas
Quando o alvo
só é beleza.
Noites em claro são lindas,
é aceita qualquer tristeza.
E nada lhe traz clareza
quando um "oi" vem só nos lábios,
sem som,
ou um aceno discreto
de longe
satisfaz uma eternidade de frieza.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Escada rolante

- E agora vamos para o Shopping Center Gabiru onde, segundo fomos informados, uma escada rolante parou de funcionar. É isso mesmo Ana?

- É isso mesmo Jorge. Como vocês podem ver a escada rolante que dá acesso à praça de alimentação do Shopping Gabiru parou de funcionar. No momento estão na escada rolante 28 pessoas. A equipe técnica já foi acionada, mas não há previsão para o reparo. Bombeiros estão a caminho. Vamos chegar mais perto e acompanhar o drama dessas pessoas.

- Como é? Vai funcionar ou não?

- Vâmo logo aê!

- Tô com fome, manhê.

- Calma meu filho, já já o moço vem pra consertar a escada.

- Eu preciso comprar meu remédio...

- Como você pode ver Jorge o clima é muito tenso aqui no Shopping Gabiru. Crianças, idosos, ninguém foi poupado desse terrível incidente. Os bombeiros chegaram! Vamos lá acompanhar.

Três bombeiros se aproximam do chefe da administração do Shopping a poucos metros da escada. Conversam por alguns segundos, até que o chefe da equipe pergunta:

- Tá, mas porque vocês não sobem a escada? Ou descem?

Em coro as vozes respondem com indgnação: Nunca! Nem morto! Andar? Eu? Que absurdo! Só pode estar louco mesmo! Pirou! Um bebê começa a chorar. Um velho de 60 e poucos anos titubeia com a mão no peito reclamando do seu remédio pro coração.

- Gente, mas são só alguns degraus. Olha aqui minha senhora - diz cutucando a primeira da escada - eu posso até encostar na senhora. Porque não desce?

- Nem morta! A gente já paga uma fortuna de estacionamento, nas lojas, pra comer, o mínimo que esse shopping deve ter é uma escada rolante que funcione. Ao terminar seu ponto de vista, em voz bem alta, de olho na câmera, é ovacionada pelos seus colegas de drama. O administrador interrompe:

- Acabamos de receber um telefonema da equipe técnica. Eles só poderão vir amanhã. Creio que os senhores terão que andar mesm(!). Antes que pudesse terminar seu pronunciamento, os gritos de "Meu remédio! Meu remé..." interromperam-no. O velho que clamava pelas pílulas que acalmariam sua angústia, tenta se reclinar no corrimão, perde o equilíbrio e despenca para a morte certa, 4 andares abaixo. Sua provável esposa, ao ver a cena, se atira.

- Como você pode ver Jorge, o desespero tomou conta dessas pessoas. Sem perspectiva de saírem da escada ainda hoje, dois já cometeram suicídio. Quando será que as autoridades irão intervir? Precisaremos de mais vítimas?

Nesse instante o mesmo garoto começa a gritar de fome, com raiva. Seu urro de descontentamento toma conta de todo o shopping center. Irritado, um homem a sua frente grita para que cale a boca. Sua mãe intervém e diz para o homem tomar conta da sua vida. Uma mulher abaixo reage empurrando a mãe da criança ordenando que cale a boca do seu filho. A briga toma proporções generalizadas. Todos discutem e gritam uns com os outros. O homem tenta dar um soco na cara da mãe do gordinho morto de fome e erra, atingindo o bebê que essa carregava. O bebê é lançado pra longe da escada, caindo de cabeça no capô do carro que estava em showroom no térreo. "OOOHHH". A mulher se descontrola. Assim, o fervor da luta que se via na escada rolante foi aumentando e, um a um, todos foram caindo, ora acidentalmente, ora arremessados, no primeiro piso do shopping. As pessoas olhavam perplexas. Sobrou apenas uma senhora, arranhada e assustada, sentada com medo na escada rolante, após 12 minutos de atrocidades.

No dia seguinte, com a chegada da equipe técnica, ela foi resgatada.