Os olhos se fecham
e a música espalha.
O mundo distorce
e as cores destoam.
Subindo até nuvens
em câmera lenta
enquanto o real
se perde sem rumo.
Sentidos se fundem
do lado de fora
do corpo que tenta
viver para sempre.
Tranquïlo e sereno -
quinhentos por hora -
com tempo pra tudo,
sem tempo pra nada
Sincero e confuso,
ativo e inerte
ao som que se perde,
envolve e abraça.
Pedaços de anseios
afoitos, sem pressa
instantes, momentos
bem mais que completos.
A vida congela.
A mente viaja.
O peito dispara.
A pele deseja.
Benção condenada.
Amor comprimido.
Prazer sem igual
num vício maldito.
A linha tênue entre o bom gosto e o mau gosto. Da paixão mais cega ao sarcasmo mais podre, passando por todos os altos e baixos que se sente, com desprezo, ódio, tesão e amor. Mas sempre sobre algo que se sinta - inclusive sobre o que se evita sentir...
quarta-feira, 21 de maio de 2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Solus
Muitos dos que tiveram a adolescência contemporânea à minha ouviram Legião Urbana, mas isso não vem ao caso. "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão" frase ululada por Renato Russo no Tempestade, disco mais sombrio e depressivo da banda. Se a frase é dele ou não, eu não sei, mas isso também não vem ao caso...
Afirmar uma coisa dessas pede, antes de mais nada, uma definição de solidão. O bom e velho Aurélio define solidão como "estado do que se encontra ou vive só". Solidão pura, livre de conotações é exatamente isso: estar só.
Assim, voltemos à frase que coloca esse estar só como o mal do século. Século que teve a Aids, o Hitler e a Veja. É um exagero poético, obviamente. Mas esse exagero retrata um mal que espero que seja fruto de condições sociais. Muito pior que a solidão é a idéia que se passa a respeito dela. Aprendemos que não devemos ficar sozinhos. O ser humano é um ser social. Quem fica sozinho sofre, remoe mágoa, vive em estado de alienação introspectiva depressiva. Planeja atentados terroristas, joga crianças pela janela, bate uma, usa drogas. Quase tudo que é condenável socialmente é facilmente aliado à idéia de isolamento.
Talvez seja algo além de questões sociais. Talvez o medo - ou o desagrado - de ficar sozinho seja inerente à raça humana. Se isso for verdade, como explicar as pessoas que apreciam a solidão? Seleção natural? Darwin? Mais ainda, estariam essas pessoas um passo a frente ou um passo atrás na linha evolutiva? Pra que lado está o super-homem, seu Nietzsche?
Enfim, passando um tempo com a solidão percebe-se que ela é muito mais bonita do que se pinta. Ela é criativa, tranquilizadora e efervescente ao mesmo tempo. Ela questiona, brinca com valores e crenças como uma criança brinca com lego. Ela não prende; ela abre portas. Ela clareia o mundo mesmo sob as luzes da noite. Ela mostra o que é importante, o que não é tão importante, o que não presta pra nada, e o melhor: explica a diferença.
Exercitem a solidão. O pior tipo de gente é aquele que não consegue viver consigo mesmo.
Afirmar uma coisa dessas pede, antes de mais nada, uma definição de solidão. O bom e velho Aurélio define solidão como "estado do que se encontra ou vive só". Solidão pura, livre de conotações é exatamente isso: estar só.
Assim, voltemos à frase que coloca esse estar só como o mal do século. Século que teve a Aids, o Hitler e a Veja. É um exagero poético, obviamente. Mas esse exagero retrata um mal que espero que seja fruto de condições sociais. Muito pior que a solidão é a idéia que se passa a respeito dela. Aprendemos que não devemos ficar sozinhos. O ser humano é um ser social. Quem fica sozinho sofre, remoe mágoa, vive em estado de alienação introspectiva depressiva. Planeja atentados terroristas, joga crianças pela janela, bate uma, usa drogas. Quase tudo que é condenável socialmente é facilmente aliado à idéia de isolamento.
Talvez seja algo além de questões sociais. Talvez o medo - ou o desagrado - de ficar sozinho seja inerente à raça humana. Se isso for verdade, como explicar as pessoas que apreciam a solidão? Seleção natural? Darwin? Mais ainda, estariam essas pessoas um passo a frente ou um passo atrás na linha evolutiva? Pra que lado está o super-homem, seu Nietzsche?
Enfim, passando um tempo com a solidão percebe-se que ela é muito mais bonita do que se pinta. Ela é criativa, tranquilizadora e efervescente ao mesmo tempo. Ela questiona, brinca com valores e crenças como uma criança brinca com lego. Ela não prende; ela abre portas. Ela clareia o mundo mesmo sob as luzes da noite. Ela mostra o que é importante, o que não é tão importante, o que não presta pra nada, e o melhor: explica a diferença.
Exercitem a solidão. O pior tipo de gente é aquele que não consegue viver consigo mesmo.
terça-feira, 6 de maio de 2008
A aniversariante gostosa
Enquanto a festa de aniversário acontecia, Ricardo não desviava sua atenção da aniversariante. Dentro de suas cabeças o mundo funcionava mais ou menos assim:
"Meu Deus... olha como ela se insinua. Todinha, por inteiro. Os olhos, redondos, pretos, safados, cheios de malícia, parecem me olhar de cima a baixo de uma vez só. Gostosa. Quando cruza com os meus então? Aí ela dá uma lambidinha no lábio de baixo, depois no de cima, daí vem aquela mordidinha na língua. Safada. Ninguém mais enxerga isso, só eu. Ela levanta a blusinha dela meio desajeitada, deixando o umbiguinho de fora e ri. Alisa a barriga com a ponta dos dedos..."
- Refrigerante?
- Obrigado!
Ricardo não levava o copo de plástico à boca e sim o contrário. Baixava a cabeça e levantava os ombros. Com o nariz apontando ao chão, olhava pra cima para olhar pra frente, quase um detetive vigiando sua presa por detrás de um jornal.
"Ó lá, ó lá! Que delícia. Colocando as mãos entre as pernas, mexendo o corpo como uma serpente pra lá e pra cá. Olhando pra mim de canto agora. Gostosa. Aposto que tá molhadinha, desesperada pra sentar no meu pau. Agora vai se espreguiçar, ó lá. Não deu outra. Se esticando inteira. Como mulher fica gostosa quando se espreguiça. De blusinha de alcinha então..."
Suas narinas se dilatavam à medida em que ia se excitando. Vestia bermuda de tactel, ou algum outro tecido leve, quem sabe. Suava ao contemplar sua musa, esquecia de todo o ambiente. Nenhum ruído interferia na sua contemplação, nenhuma outra forma se destacava. Ele precisava dela como nunca imaginava precisar de alguma mulher.
"Foi buscar um salgadinho. Olha a bundinha dela. Deve ser uma delícia. Firme, redondinha. Gosto de mulher pequeninha assim, dá pra virar de qualquer jeito na cama. Gostosa. Mina que não güenta o pau, que senta e rasga, vai lá dentro. Tesão. Buceta rosinha, cuzinho rosinha, bico rosinha. Ela tá vindo pra cá... ai meu Deus... botar ela pra sentir o vergão..."
- Vem cá!
Alice sentou no colo de seu primo Ricardo enquanto todos batiam palmas. Ela fazia 11 anos.
"Meu Deus... olha como ela se insinua. Todinha, por inteiro. Os olhos, redondos, pretos, safados, cheios de malícia, parecem me olhar de cima a baixo de uma vez só. Gostosa. Quando cruza com os meus então? Aí ela dá uma lambidinha no lábio de baixo, depois no de cima, daí vem aquela mordidinha na língua. Safada. Ninguém mais enxerga isso, só eu. Ela levanta a blusinha dela meio desajeitada, deixando o umbiguinho de fora e ri. Alisa a barriga com a ponta dos dedos..."
- Refrigerante?
- Obrigado!
Ricardo não levava o copo de plástico à boca e sim o contrário. Baixava a cabeça e levantava os ombros. Com o nariz apontando ao chão, olhava pra cima para olhar pra frente, quase um detetive vigiando sua presa por detrás de um jornal.
"Ó lá, ó lá! Que delícia. Colocando as mãos entre as pernas, mexendo o corpo como uma serpente pra lá e pra cá. Olhando pra mim de canto agora. Gostosa. Aposto que tá molhadinha, desesperada pra sentar no meu pau. Agora vai se espreguiçar, ó lá. Não deu outra. Se esticando inteira. Como mulher fica gostosa quando se espreguiça. De blusinha de alcinha então..."
Suas narinas se dilatavam à medida em que ia se excitando. Vestia bermuda de tactel, ou algum outro tecido leve, quem sabe. Suava ao contemplar sua musa, esquecia de todo o ambiente. Nenhum ruído interferia na sua contemplação, nenhuma outra forma se destacava. Ele precisava dela como nunca imaginava precisar de alguma mulher.
"Foi buscar um salgadinho. Olha a bundinha dela. Deve ser uma delícia. Firme, redondinha. Gosto de mulher pequeninha assim, dá pra virar de qualquer jeito na cama. Gostosa. Mina que não güenta o pau, que senta e rasga, vai lá dentro. Tesão. Buceta rosinha, cuzinho rosinha, bico rosinha. Ela tá vindo pra cá... ai meu Deus... botar ela pra sentir o vergão..."
- Vem cá!
Alice sentou no colo de seu primo Ricardo enquanto todos batiam palmas. Ela fazia 11 anos.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Felicidades e tristezas
A noção de felicidade e de tristeza que se aprende por aí é errada. As pessoas aprendem a associar valores a essas duas entdades de acordo com os interesses ou crenças dos grupos sociais onde crescem. Dinheiro, poder e sucesso geralmente são geradores de felicidade enquanto saudade, desilusão e solidão são agentes causadores da tristeza. Enquanto a felicidade deve ser buscada incessantemente, a tristeza deve ser evitada com toda força.
O que não é ensinado é que esse anseio por felicidade, diversas vezes frustrado pelo próprio idealismo dessa idéia, é o maior provedor dos sentimentos aliados à triste decepção, da mesma forma que a superação de adversidades, ligadas à temida sensação de tristeza, causa a euforia da felicidade.
Felicidade e tristeza não são extremidades de uma mesma linha do tempo, mas sim dentes da mesma engrenagem: a vida.
O que não é ensinado é que esse anseio por felicidade, diversas vezes frustrado pelo próprio idealismo dessa idéia, é o maior provedor dos sentimentos aliados à triste decepção, da mesma forma que a superação de adversidades, ligadas à temida sensação de tristeza, causa a euforia da felicidade.
Felicidade e tristeza não são extremidades de uma mesma linha do tempo, mas sim dentes da mesma engrenagem: a vida.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Fé
O cenário é uma igreja evangélica no centro velho de São Paulo. Um rebanho enorme acompanha depoimentos das ovelhas que conseguiram alcançar a graça divina. O bispo chama um rapaz de aproximadamente uns vinte e poucos anos para contar sua história de vitória - vitória essa que se manifesta em notas de cinquënta e de cem hoje em dia.
- Boa noite filho!
- Boa noite bispo!
- Qual é sua história?
- Ah bispo, quando eu cheguei aqui a minha vida, minha família tava completamente destruída, né?
- É mesmo? O que aconteceu? A voz do bispo parece preocupada.
- Meu pai tinha sido preso. Estrupo. Acusado de tentá estrupá uma menina lá do bairro, né? Minha van de cachorro quente não tava dando mais dinhêro então minha mãe teve que começá a trabalhá pá fora. Eu não arrumava trabalho e minha mãe tamém não. Nem como empregada doméstica. Foi difícil. Minha irmã tinha fugido de casa, tava nas droga, tomando maconha, cocaína...
- Nossa... Os olhos do bispo parecem tristes.
- E bem nessa época minha irmã descobriu que tava grávida. Quando o namorado dela ficou sabendo ficou doido. Minha mãe teve que começar a trabalhá na rua né? Sabe como é, que nem puta... Foi aí que começaram os cheques devolvidos.
- Meu Deus! Suas sobrancelhas quase pulam fora de seu rosto. Daí que o senhor veio pra igreja?
- Isso mesmo bispo! Eu vi o pograma na televisão e resolvi vim. Era muita humilhação, sabe? Deveno na praça, os amigos se afastava, mãe puta, irmã buchada de vagabundo que batia nela. Tivemo que vendê tudo, sabe?
- E como está a vida da sua família hoje, meu filho? Sua feição demonstra o prenúncio de um triunfo.
- Abençoada Bispo. Tá tudo bem agora. Meu pai apanhou tanto na cadeia que acabou morrendo, o que foi uma benção porque ele tinha um seguro de vida que ninguém sabia. Ganhamo um dinheirão e minha mãe agora não trabalha mais como puta e abriu um puteiro aqui no centro. Minha irmã então, foi uma benção. Acabou brigando com o namorado que bateu nela e ela perdeu o filho, mas graças a Deus ela tá bem. Ela tá tomando uns remédio bom agora e largou as droga. Voltou pra casa e faz um mêis que ela não sai do quarto dela. Tá bem melhor!
- E você meu filho? Está trabalhando hoje?
- Tô sim, bispo! Hoje eu sou pastor!
- Aleluia irmão! A voz do bispo atinge oitavas altíssimas, reverberando pelos vitrais da igreja. O rebanho todo repete o grito de fé. Clamem a Deus, irmãos! Nenhum deles parece saber o que é clamar. Deus quer mudar a sua vida também. O bispo ergue os braços, o rebanho ergue suas patas. Ele cerra as mãos e os olhos com força e inicia uma oração em tom suplicante.
Ao final da oração todos se sentem pessoas melhores. Uns berram amém, outros aleluia, mas nunca, nunca antes do bispo.
- Boa noite filho!
- Boa noite bispo!
- Qual é sua história?
- Ah bispo, quando eu cheguei aqui a minha vida, minha família tava completamente destruída, né?
- É mesmo? O que aconteceu? A voz do bispo parece preocupada.
- Meu pai tinha sido preso. Estrupo. Acusado de tentá estrupá uma menina lá do bairro, né? Minha van de cachorro quente não tava dando mais dinhêro então minha mãe teve que começá a trabalhá pá fora. Eu não arrumava trabalho e minha mãe tamém não. Nem como empregada doméstica. Foi difícil. Minha irmã tinha fugido de casa, tava nas droga, tomando maconha, cocaína...
- Nossa... Os olhos do bispo parecem tristes.
- E bem nessa época minha irmã descobriu que tava grávida. Quando o namorado dela ficou sabendo ficou doido. Minha mãe teve que começar a trabalhá na rua né? Sabe como é, que nem puta... Foi aí que começaram os cheques devolvidos.
- Meu Deus! Suas sobrancelhas quase pulam fora de seu rosto. Daí que o senhor veio pra igreja?
- Isso mesmo bispo! Eu vi o pograma na televisão e resolvi vim. Era muita humilhação, sabe? Deveno na praça, os amigos se afastava, mãe puta, irmã buchada de vagabundo que batia nela. Tivemo que vendê tudo, sabe?
- E como está a vida da sua família hoje, meu filho? Sua feição demonstra o prenúncio de um triunfo.
- Abençoada Bispo. Tá tudo bem agora. Meu pai apanhou tanto na cadeia que acabou morrendo, o que foi uma benção porque ele tinha um seguro de vida que ninguém sabia. Ganhamo um dinheirão e minha mãe agora não trabalha mais como puta e abriu um puteiro aqui no centro. Minha irmã então, foi uma benção. Acabou brigando com o namorado que bateu nela e ela perdeu o filho, mas graças a Deus ela tá bem. Ela tá tomando uns remédio bom agora e largou as droga. Voltou pra casa e faz um mêis que ela não sai do quarto dela. Tá bem melhor!
- E você meu filho? Está trabalhando hoje?
- Tô sim, bispo! Hoje eu sou pastor!
- Aleluia irmão! A voz do bispo atinge oitavas altíssimas, reverberando pelos vitrais da igreja. O rebanho todo repete o grito de fé. Clamem a Deus, irmãos! Nenhum deles parece saber o que é clamar. Deus quer mudar a sua vida também. O bispo ergue os braços, o rebanho ergue suas patas. Ele cerra as mãos e os olhos com força e inicia uma oração em tom suplicante.
Ao final da oração todos se sentem pessoas melhores. Uns berram amém, outros aleluia, mas nunca, nunca antes do bispo.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Por que os homens não dançam... ou como o preconceito se perpetua nas entrelinhas.
- Eu curto mina que sabe dançar...
- É né? Elas se mexem de um jeito...
- Aham. Tudo acaba virando uma performance. Tudo parece milimetricamente ensaiado. É bonito de se ver.
- Sem contar o rebolado.
- Ah, o rebolado...
- E por que será que tem muito mais mulheres que gostam de dançar que homens?
- Como assim?
- Ah, você não ouve um cara falando que quer sair pra dançar, ouve? É muito mais normal ouvir uma mina falando isso...
- Mas eu acho que o gosto da dança é inerente ao ser humano. Não mais à mulher que ao homem.
- Mas por que as minas se identificam mais com a dança?
- Ah, sei lá. Eu aprendi desde pequenininho que balé era coisa de mulher. Ou coisa de viado. Aprendi também que viado era uma coisa que eu não devia querer ser. Dois mais dois são quatro. Não foi assim com você também?
- Ha ha ha! Foi!
- Daí você começa a lembrar das festinhas de primeiro, segundo colegial. Toda a molecadinha com seus catorze, quinze anos. Cada um ali com medo de não ser aceito pelo seu grupo, todos precisando de afirmação. Na roda de meninas todas pulam e giram, parecem crianças - eram crianças na verdade - e parecem se divertir muito. A roda de moleques ouve o mesmo ritmo, mas fazem pouco mais que balançarem os ombros. Se eu me mexer muito posso parecer viado, pensa cada um deles.
- E daí?
- Daí o tempo vai passando, a gente percebe que no nosso meio ninguém se mexe daquele jeito, e termina por associar a dança como coisa de menina ou de viado. Passa a ridicularizar qualquer moleque que se atreva a dançar e acha aquilo uma bobagem...
- É triste...
- Aham. Assim o máximo da dança que a maioria dos homens consegue desempenhar é um medíocre balançar de ombros e queixo, sem tirar os pés do chão, com um medo de se sentir ridículo ou parecer viado...
- Ou então se droga, fala que tava muito louco e chacoalha o corpo feito um desesperado desengonçado.
- É! O doce retiro que a loucura proporciona. Mas e se um dia seu filho virar pra você e falar que quer fazer balé? Ser dançarino? Levar a vida nos palcos com aquelas roupas justas qúe só mostram o saco do cara?
- Dou uns tapas nele, boto ele na natação e compro uns carrinhos pra ele brincar...
- É né? Elas se mexem de um jeito...
- Aham. Tudo acaba virando uma performance. Tudo parece milimetricamente ensaiado. É bonito de se ver.
- Sem contar o rebolado.
- Ah, o rebolado...
- E por que será que tem muito mais mulheres que gostam de dançar que homens?
- Como assim?
- Ah, você não ouve um cara falando que quer sair pra dançar, ouve? É muito mais normal ouvir uma mina falando isso...
- Mas eu acho que o gosto da dança é inerente ao ser humano. Não mais à mulher que ao homem.
- Mas por que as minas se identificam mais com a dança?
- Ah, sei lá. Eu aprendi desde pequenininho que balé era coisa de mulher. Ou coisa de viado. Aprendi também que viado era uma coisa que eu não devia querer ser. Dois mais dois são quatro. Não foi assim com você também?
- Ha ha ha! Foi!
- Daí você começa a lembrar das festinhas de primeiro, segundo colegial. Toda a molecadinha com seus catorze, quinze anos. Cada um ali com medo de não ser aceito pelo seu grupo, todos precisando de afirmação. Na roda de meninas todas pulam e giram, parecem crianças - eram crianças na verdade - e parecem se divertir muito. A roda de moleques ouve o mesmo ritmo, mas fazem pouco mais que balançarem os ombros. Se eu me mexer muito posso parecer viado, pensa cada um deles.
- E daí?
- Daí o tempo vai passando, a gente percebe que no nosso meio ninguém se mexe daquele jeito, e termina por associar a dança como coisa de menina ou de viado. Passa a ridicularizar qualquer moleque que se atreva a dançar e acha aquilo uma bobagem...
- É triste...
- Aham. Assim o máximo da dança que a maioria dos homens consegue desempenhar é um medíocre balançar de ombros e queixo, sem tirar os pés do chão, com um medo de se sentir ridículo ou parecer viado...
- Ou então se droga, fala que tava muito louco e chacoalha o corpo feito um desesperado desengonçado.
- É! O doce retiro que a loucura proporciona. Mas e se um dia seu filho virar pra você e falar que quer fazer balé? Ser dançarino? Levar a vida nos palcos com aquelas roupas justas qúe só mostram o saco do cara?
- Dou uns tapas nele, boto ele na natação e compro uns carrinhos pra ele brincar...
sábado, 12 de abril de 2008
O fenômeno da Comoção Induzida
Já tem alguns dias que o Brasil todo passa por um estado de hipnose. Estamos todos comovidos, revoltados, tocados profundamente por algo muito distante da maioria de todos nós. Como espectadores que torcem para o herói vencer o mau-caráter e ficar com a mocinha ao final do filme, milhares (ou milhões?) de pessoas acompanham passo a passo a mídia para conseguirem a resposta da pergunta do ano: Quem matou Isabella? A pipoca, porém, é feita em casa, haja vista que o caso ainda não foi para o cinema. Uma garota é assassinada. Os principais suspeitos são presos preventivamente.
Polícia, peritos, todos os órgãos competentes e oficiais são chamados ao caso para a tão sonhada apuração da verdade. Pistas aparecem, histórias caem em contradição. Suspense. Ninguém sabe o que aconteceu. Isso é tão normal no dia a dia de São Paulo, que em dezembro de 2007 foram comemoradas as primeiras 24 horas sem homicídios na cidade, desde a década de 50. Nós temos o sangue-frio. Nós vemos mendigos no centro velho, dispostos no chão como sacos de lixo, sem saber se estão vivos ou mortos e reagimos com nojo, com asco. Até que fica banal. Roubo, estupro, negligência, atropelamento, tudo isso já virou arroz com feijão. O que acontece de diferente nesse caso?
A diferença é a exposição da história. Todos os canais, quase que simultaneamente, estão acompanhando todos os mais minuciosos e estúpidos detalhes. A investigação é atualizada todos os dias por profissionais que dizem estar unicamente buscando a justiça. Um sinal de lesão corporal, alguém que troca de camiseta, uma análise grafológica da letra de mão dos envolvidos, qualquer bobagem que possa ser relacionada ao caso é trazida à tona. Os peritos aparecem no jornal de jaleco, fazendo exames, igualzinho àquele programa de televisão que fazem lá fora, como é mesmo o nome? A família, por confiança no poder da mídia, ou por alguma morbidez, se deixa levar e dá um prato cheio para a alcatéia de repórteres: imagens de júbilo e depoimentos com lágrimas e soluços, os dois extremos de emoção que amarram essa corrente podre sensacionalista que se espalha por toda a mídia brasileira.
As pessoas começam a comentar nas ruas: eu acho que foi fulano, eu acho que foi ciclano. A notícia começa a tomar proporções de ficção. Um reality show, uma novela ao vivo, feita sob o bordão da luta pela justiça. Uma comoção articulada, induzida - feita com muito mais minuciosidade que se enxerga e muito menos espontaneidade que se imagina - nasce no coração de todo um povo. Gente que não conhece ninguém envolvido, chora. Outros ficam com ódio. Outros tristes, perdem a fé na humanidade. Fica a impressão que o mundo efetivamente parou para esperar a solução desse caso. Nada mais é importante enquanto o bandido não estiver atrás das grades. Toda a perversão, todo o crime cometido no país é simbolizado naquele ponto, naquela janela, naquela menina, e se o assassino for preso viveremos felizes para sempre. Três dias depois da prisão do dito cujo, poucos se lembrarão do caso Isabella.
Mas pior que a comoção artificial gerada por essa articulação de profissionais treinados para tanto, é a figura que se projeta do jornalista. O mensageiro da verdade, correto, honesto, puro, que luta lado a lado com a polícia para resolver esse tão sórdido mistério. Os jornalistas, a alcatéia toda, fazem plantão na porta da família, mendigando informações do dono do lava rápido da rua de cima, da vizinha que mora no fim da rua há 30 anos, do carteiro que sempre fazia aquele trajeto. Tudo em nome da liberdade de imprensa. Liberdade de imprensa que confina toda uma família dentro de casa e que implica o dever de falar à população sob tormenta. O povo tem o direito de saber, eles vociferam. Evocam a ditadura militar, tempos de repressão, de receitas de bolo na primeira página do jornal. É isso que vocês querem? Nãããão, repetem os hipnotizados. Nós o saudamos, ó nobre cavaleiro, defensor dos oprimidos. São heróis, são exemplos, igualzinho àquele programa de televisão que fazem lá fora... como é mesmo o nome?
Todos se perguntam o porquê. A cena é chocante. Perturba. Aflige. Uma criança é quase sempre vista como o símbolo máximo da inocência do monstro chamado homem. Ela é pura, livre de conceitos nojentos como corrupção ou pecado. É ela que nos faz acreditar no futuro melhor, naquele dia em que tudo será como deveria ser, e talvez por isso custemos a acreditar quando ela cresce e se torna um de nós. Mas nada disso tem a menor importância pra esse caso. Essa não é uma história sobre a perda da inocência na sociedade ocidental, sobre monstros, sobre crueldade e como ela é inerente ao ser humano. Aliás, sequer é uma história. É só uma articulação da forma, na qual o conteúdo pouco interessa. Duas caras, Suzane Richthofen, CSI Miami, Desejo Proibido, João Hélio, tanto faz...
Polícia, peritos, todos os órgãos competentes e oficiais são chamados ao caso para a tão sonhada apuração da verdade. Pistas aparecem, histórias caem em contradição. Suspense. Ninguém sabe o que aconteceu. Isso é tão normal no dia a dia de São Paulo, que em dezembro de 2007 foram comemoradas as primeiras 24 horas sem homicídios na cidade, desde a década de 50. Nós temos o sangue-frio. Nós vemos mendigos no centro velho, dispostos no chão como sacos de lixo, sem saber se estão vivos ou mortos e reagimos com nojo, com asco. Até que fica banal. Roubo, estupro, negligência, atropelamento, tudo isso já virou arroz com feijão. O que acontece de diferente nesse caso?
A diferença é a exposição da história. Todos os canais, quase que simultaneamente, estão acompanhando todos os mais minuciosos e estúpidos detalhes. A investigação é atualizada todos os dias por profissionais que dizem estar unicamente buscando a justiça. Um sinal de lesão corporal, alguém que troca de camiseta, uma análise grafológica da letra de mão dos envolvidos, qualquer bobagem que possa ser relacionada ao caso é trazida à tona. Os peritos aparecem no jornal de jaleco, fazendo exames, igualzinho àquele programa de televisão que fazem lá fora, como é mesmo o nome? A família, por confiança no poder da mídia, ou por alguma morbidez, se deixa levar e dá um prato cheio para a alcatéia de repórteres: imagens de júbilo e depoimentos com lágrimas e soluços, os dois extremos de emoção que amarram essa corrente podre sensacionalista que se espalha por toda a mídia brasileira.
As pessoas começam a comentar nas ruas: eu acho que foi fulano, eu acho que foi ciclano. A notícia começa a tomar proporções de ficção. Um reality show, uma novela ao vivo, feita sob o bordão da luta pela justiça. Uma comoção articulada, induzida - feita com muito mais minuciosidade que se enxerga e muito menos espontaneidade que se imagina - nasce no coração de todo um povo. Gente que não conhece ninguém envolvido, chora. Outros ficam com ódio. Outros tristes, perdem a fé na humanidade. Fica a impressão que o mundo efetivamente parou para esperar a solução desse caso. Nada mais é importante enquanto o bandido não estiver atrás das grades. Toda a perversão, todo o crime cometido no país é simbolizado naquele ponto, naquela janela, naquela menina, e se o assassino for preso viveremos felizes para sempre. Três dias depois da prisão do dito cujo, poucos se lembrarão do caso Isabella.
Mas pior que a comoção artificial gerada por essa articulação de profissionais treinados para tanto, é a figura que se projeta do jornalista. O mensageiro da verdade, correto, honesto, puro, que luta lado a lado com a polícia para resolver esse tão sórdido mistério. Os jornalistas, a alcatéia toda, fazem plantão na porta da família, mendigando informações do dono do lava rápido da rua de cima, da vizinha que mora no fim da rua há 30 anos, do carteiro que sempre fazia aquele trajeto. Tudo em nome da liberdade de imprensa. Liberdade de imprensa que confina toda uma família dentro de casa e que implica o dever de falar à população sob tormenta. O povo tem o direito de saber, eles vociferam. Evocam a ditadura militar, tempos de repressão, de receitas de bolo na primeira página do jornal. É isso que vocês querem? Nãããão, repetem os hipnotizados. Nós o saudamos, ó nobre cavaleiro, defensor dos oprimidos. São heróis, são exemplos, igualzinho àquele programa de televisão que fazem lá fora... como é mesmo o nome?
Todos se perguntam o porquê. A cena é chocante. Perturba. Aflige. Uma criança é quase sempre vista como o símbolo máximo da inocência do monstro chamado homem. Ela é pura, livre de conceitos nojentos como corrupção ou pecado. É ela que nos faz acreditar no futuro melhor, naquele dia em que tudo será como deveria ser, e talvez por isso custemos a acreditar quando ela cresce e se torna um de nós. Mas nada disso tem a menor importância pra esse caso. Essa não é uma história sobre a perda da inocência na sociedade ocidental, sobre monstros, sobre crueldade e como ela é inerente ao ser humano. Aliás, sequer é uma história. É só uma articulação da forma, na qual o conteúdo pouco interessa. Duas caras, Suzane Richthofen, CSI Miami, Desejo Proibido, João Hélio, tanto faz...
segunda-feira, 31 de março de 2008
Os amores que passam
Douglas acordou tranquilo. Era um dia normal. Só após o banho, depois de todas rotineiras atividades matinais que disse em voz alta, assustado, como se alguém fosse ouvi-lo:
- Tá tudo cinza!
Douglas acordara enxergando tudo em tons de cinza. O verde das plantas, as cores dos lindos quadros que decoravam sua sala de estar, até as cores da televisão. Tudo era uma variação de tons de cinza.
- Só pode ser sonho!
Mas não era.
- Deve ser a ressaca...
A dor de cabeça sim. Mas o mundo cinza não. Tentou se lembrar da noite passada. Ela tinha sido colorida, disso tinha certeza. Algo teria acontecido enquanto dormira? Tentou se lembrar da última recordação de cor que tinha em mente. Eram os olhos azuis de Mariana, sim, aqueles lindos olhos azuis, de um azul escuro sem igual no mundo. Mas eles estavam vermelhos. Mariana chorava, chorava muito. Dizia coisas, gritava com ele. Ele não se lembrava das palavras. Não sabia o que era sonho e o que era lembrança mais. Resolveu ligar pra ela.
- Alô Mari?
- Seu cachorro!
Era tudo o que precisava ouvir. Tudo ficara claro, ainda que em tons de cinza. A Juliana e ele... a Mariana chegando... abrindo a porta... vendo os dois... a risada de Juliana... ele seguindo Mariana... aqueles olhos azuis, enormes, brilhantes como pérolas, cheios de lágrimas... ela jogando a aliança... Até então tava tudo colorido. Até o tapa foi em cores.
- Calma Mari... não é nada do que você tá pensando... Ele a puxava pelo braço.
- Eu não tô pensando nada Douglas... eu vi! Ela, desvencilhando-se dele, andava com pressa em direção ao carro.
- Olha pra mim Mari, fala comigo.
- Eu tô com nojo de olhar pra você. De falar com você. Some da minha vida.
- Pára meu amor. Não fala assim... vem cá que - Um tapa não o deixou terminar a frase.
- "Meu amor" o caralho! Nunca mais me chama de "meu amor". Você perdeu esse direito quando enfiou seu pinto naquela vagabunda. Como você pôde?
E antes que ele conseguisse pensar em, ou dizer qualquer coisa, ela tinha alcançado dentro do carro uma espécie de fichário - Tá vendo isso aqui?
- Sim - bem baixinho e miúdo.
- Isso aqui é um álbum, cheio de poesia e desenho, contando a história dos nossos 5 anos juntos. A idiota aqui ia te dar de presente hoje. Passei o dia inteiro pintando essa merda, colando fotos... e pra quê, heim? Eu olho pra isso agora e sabe o que vejo? Vejo tudo borrado e cinza...
- Pára amor, que exagero...
- Exagero é? Pois é assim que me sinto... tá tudo sem cor, sem vida. E se jogar um amor no lixo como você acabou de fazer não mexe contigo quem sabe amanhã, quando você olhar pra esse álbum, sóbrio e com um pouco mais de vergonha na cara, você consiga ver graça e cor nele. Porque eu não consigo mais.
Foram as últimas palavras dela. Depois disso arrancou o carro e sumiu. Ele pegou o álbum e voltou pra Juliana. Mais tarde voltou pra casa.
Sua vida estava literalmente cinza sem Mariana. O álbum era lindo até sem cores. Pensou em dar um jeito nessa loucura toda e pegou o telefone novamente. Folheava página por página calmamente enquanto ninguém atendia sua ligação. Finalmente um alô o saudara do outro lado da linha e marcaram de se encontrar na mesma noite. Ele, lógico, levou o álbum consigo.
Chegando no lugar do encontro, Douglas, ainda dentro de um mundo todo cinza, deu um abraço apertado e um beijo molhado na sua garota. Trocaram palavras aparentemente sinceras de amor e carinho. Quando ela viu o álbum, não prendeu o riso. Ria alto, de escárnio, um riso que saía com força do peito. Ria mais a cada página que virava. Suas gargalhadas pularam para a boca de Douglas que só então percebia que os olhos cinzas de sua parceira começavam a tomar cor. Um mundo cinza sem Mariana? Não com os lindos olhos verdes de Juliana sorrindo por perto...
- Tá tudo cinza!
Douglas acordara enxergando tudo em tons de cinza. O verde das plantas, as cores dos lindos quadros que decoravam sua sala de estar, até as cores da televisão. Tudo era uma variação de tons de cinza.
- Só pode ser sonho!
Mas não era.
- Deve ser a ressaca...
A dor de cabeça sim. Mas o mundo cinza não. Tentou se lembrar da noite passada. Ela tinha sido colorida, disso tinha certeza. Algo teria acontecido enquanto dormira? Tentou se lembrar da última recordação de cor que tinha em mente. Eram os olhos azuis de Mariana, sim, aqueles lindos olhos azuis, de um azul escuro sem igual no mundo. Mas eles estavam vermelhos. Mariana chorava, chorava muito. Dizia coisas, gritava com ele. Ele não se lembrava das palavras. Não sabia o que era sonho e o que era lembrança mais. Resolveu ligar pra ela.
- Alô Mari?
- Seu cachorro!
Era tudo o que precisava ouvir. Tudo ficara claro, ainda que em tons de cinza. A Juliana e ele... a Mariana chegando... abrindo a porta... vendo os dois... a risada de Juliana... ele seguindo Mariana... aqueles olhos azuis, enormes, brilhantes como pérolas, cheios de lágrimas... ela jogando a aliança... Até então tava tudo colorido. Até o tapa foi em cores.
- Calma Mari... não é nada do que você tá pensando... Ele a puxava pelo braço.
- Eu não tô pensando nada Douglas... eu vi! Ela, desvencilhando-se dele, andava com pressa em direção ao carro.
- Olha pra mim Mari, fala comigo.
- Eu tô com nojo de olhar pra você. De falar com você. Some da minha vida.
- Pára meu amor. Não fala assim... vem cá que - Um tapa não o deixou terminar a frase.
- "Meu amor" o caralho! Nunca mais me chama de "meu amor". Você perdeu esse direito quando enfiou seu pinto naquela vagabunda. Como você pôde?
E antes que ele conseguisse pensar em, ou dizer qualquer coisa, ela tinha alcançado dentro do carro uma espécie de fichário - Tá vendo isso aqui?
- Sim - bem baixinho e miúdo.
- Isso aqui é um álbum, cheio de poesia e desenho, contando a história dos nossos 5 anos juntos. A idiota aqui ia te dar de presente hoje. Passei o dia inteiro pintando essa merda, colando fotos... e pra quê, heim? Eu olho pra isso agora e sabe o que vejo? Vejo tudo borrado e cinza...
- Pára amor, que exagero...
- Exagero é? Pois é assim que me sinto... tá tudo sem cor, sem vida. E se jogar um amor no lixo como você acabou de fazer não mexe contigo quem sabe amanhã, quando você olhar pra esse álbum, sóbrio e com um pouco mais de vergonha na cara, você consiga ver graça e cor nele. Porque eu não consigo mais.
Foram as últimas palavras dela. Depois disso arrancou o carro e sumiu. Ele pegou o álbum e voltou pra Juliana. Mais tarde voltou pra casa.
Sua vida estava literalmente cinza sem Mariana. O álbum era lindo até sem cores. Pensou em dar um jeito nessa loucura toda e pegou o telefone novamente. Folheava página por página calmamente enquanto ninguém atendia sua ligação. Finalmente um alô o saudara do outro lado da linha e marcaram de se encontrar na mesma noite. Ele, lógico, levou o álbum consigo.
Chegando no lugar do encontro, Douglas, ainda dentro de um mundo todo cinza, deu um abraço apertado e um beijo molhado na sua garota. Trocaram palavras aparentemente sinceras de amor e carinho. Quando ela viu o álbum, não prendeu o riso. Ria alto, de escárnio, um riso que saía com força do peito. Ria mais a cada página que virava. Suas gargalhadas pularam para a boca de Douglas que só então percebia que os olhos cinzas de sua parceira começavam a tomar cor. Um mundo cinza sem Mariana? Não com os lindos olhos verdes de Juliana sorrindo por perto...
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