quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Propagando publicidade publicando propaganda!

Publicidade é uma área fascinante. Principalmente pra quem não conhece. Todo mundo acha que publicitário fica batendo a cabeça na parede numa sala com uma mesa de sinuca, uma outra de pinball, dando risada alto e tendo idéias mirabolantes e engraçadíssimas; isso ou deitado numa rede na mesma sala ao lado de dois caras, um tocando violão e o outro bongô, bolando jingles.

O que muita gente não sabe é que, assim como jornalistas e profissionais de palavras cruzadas - você pode não saber, mas existe sim uma liga mundial de palavras cruzadas - um publicitário não precisa de nada além de uma educação de oitava série. No máximo um macintosh, que vem só com um botão no mouse para não complicar quem for canhoto. Ah, e um alto limiar de dor ajuda no caso das chicotadas.

Feita essa introdução, gostaria de apresentar alguns roteiros que, certamente, serviriam para ótimas propagandas publicitárias na nossa tão requintada televisão aberta. Talvez faça disso um capítulo no blog, talvez não. Quem se importa? Mas enfim, são roteiros híbridos, poliformes, que servem para anunciar qualquer coisa! É a mágica da propaganda!

Um garoto, aproximadamente 20 e poucos anos, está mexendo no computador (como você). Ao lado dele uma morena muito gostosa, de preferência com uma blusa de alcinha com um decote daqueles (nem tanto como você agora). Eles conversam alguns segundos sobre qualquer coisa, não importa. De outro cômodo uma voz feminina grita "Filho, mandei um e-mail pra você. Acho bom você dar uma olhada!". O casal se entreolha, o rapaz dá de ombros, e acessa seu e-mail. A câmera corta para tela do micro. O e-mail é um daqueles "Enlarge your penis" e no remetente deve constar "Mamãe".

Final 1: A garota olha, dá risada. O garoto sorri aliviado e a assinatura "Guaraná Antártica, é o que é" entra na tela;

Final 2: A garota olha para o rapaz, desapontada. Toma um gole de chá e sente dor no dente. "Dentes sensíveis? Sensodyne!";

Final 3: A garota olha para o rapaz com uma expressão indecifrável e diz "Skavuska". Corta a cena. "Net, agora com controle de SPAM";

Final 4: Entra o logo da MTV.

Essa é mais ou menos a idéia. Mande também o seu final! Seja publicitário por um dia!

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Beijo

Você pode ter dez, vinte ou trinta anos. Você pode ser homem, mulher, gordo, magro, alto, baixo, caolho, coxo, não importa. Também não faz diferença com quantas pessoas você foi pra cama ou se você malha todos os dias. Existe uma barreira que sempre muda as coisas quando a gente a quebra.

Quando existe o encontro, a fusão de dois desejos igualmente intensos de sentidos opostos. O olho no olho, a vontade implícita, o ajeitar do cabelo, o toque no braço, na mão. O sorriso vem meio preso, meio articulado artificialmente. Uma certa inquietação pairando no ar, algo a ser resolvido.

É o primeiro beijo. O beijo faz com que dois estranhos criem intimidade. É instantâneo. Tocar língua com língua, com aquele barulho molhado, sentindo cheiro e esfregando pele, de olhos bem fechados, buscando uma forma, uma imagem que traduza aquela sinestesia deliciosa que se sente. Quase como se as almas saíssem pelas bocas, encontrando-se naquela caverna úmida, e conversassem, abraçadas, uma sussurrando segredos no ouvido da outra. Contando as piadas que a outra acha graça, fazendo cócegas e cafunés. Elas se divertem, e ao final do beijo uma olha pra outra e diz "shhhh" com o dedo na frente dos lábios, piscam, dão uma risadinha e voltam para os corpos. Os olhos se abrem.

E não é algo completamente ridículo olhar alguém de perto desse jeito? Seria, não fosse a intimidade do beijo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

E você acha que não?

Era uma manhã quente na cidade maravilhosa, com turistas, balas perdidas e prostitutas indo dormir. Nada de anormal aparentemente. Os primeiros que notaram alguma diferença foram uns turistas japoneses que, do Arpoador, apontavam agitados em direção ao Cristo, gritando um monte de palavras com "i". Pouco a pouco as pessoas começaram a se perguntar o que acontecera e a notícia se espalhou como trilho de pólvora.

Jesus vestia uma jaqueta de couro gigante. Um logo de uma famosa grife estampado nas suas costas era visto a quilômetros. Um absurdo. Uma ofensa. Genial. Diferente. Foram longe demais. As opiniões eram divididas nas ruas, e logo as pessoas foram atrás dos noticiários em busca de respostas e esclarecimentos.

Qual não foi a surpresa quando descobriram que o obelisco do Ibirapuera em São Paulo estava coberto por uma camisinha enorme e o tradicional laçador de porto alegre usava óculos escuros e um boné do Chicago Bulls. No mineirão, além das lonas cobrindo toda a parte de fora de sua estrutura repletas de anúncios do comércio local, uma inscrição havia sido feita em pleno gramado, com piche: "Perca peso agora! Pergunte-me como!".

As notícias continuavam chegando. Diversos monumentos Brasil afora tinham sido maculados com os tons sombrios da propaganda descomedida. Pouco a pouco a população pressionou seus líderes para que medidas fossem tomadas, e foram. Alguém dessa vez pagaria por essa mancha negra na história do Brasilzão, e em menos de 24 horas o legislativo já tinha um projeto que regulamentava esse tipo de divulgação, cobrando taxas que favoreciam ações mais longas e com plano de fidelidade.

Mas, como tudo acaba em pizza por aqui - 33688902, entrega 24h, segundo o anúncio no MASP - a coisa acabou caindo na normalidade. Nenhuma empresa assumiu a responsabilidade dos anúncios, não havia provas, e ninguém foi cobrado, multado ou taxado. Só enganado. Os anúncios continuam, com rodízios esporádicos. Um "Ministério das Comunicações Comerciais" foi criado mas ninguém sabe direito o que ele faz, tampouco porque o telefone logo abaixo do "Anuncie aqui" escrito na parede do prédio do Congresso cai direto na mesa do ministro.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Apenas um pedaço de carne

Era uma noite quente. Melissa fazia o caminho de sempre até o ponto de ônibus, como todos os dias após o trabalho, porém naquela noite Joana não a acompanhou, seu namorado viria buscá-la. Não a agradava andar sozinha na rua tarde da noite, mas era questão de tempo até conseguir mudar de horário na central. Seu vestido curto, adequado para uma noite de dezembro, contornava sua silhueta com perfeição, um corpo cheio de curvas e de pele firme. Sua figura contrastava com a paisagem decadente do centro da cidade, seu perfume lutava por espaço com o odor dos mendigos e das bocas de lobo. Seguia os 6 quarteirões de sempre sem a cautela que deveria ter tido aquela noite...

Foi logo após contornar a esquina do banco. "Lembro que senti um golpe na cabeça" disse ao delegado. Um homem bem mais alto que ela a arrastou pra dentro de um hall de caixas eletrônicos, arrancando seu vestido como um animal faminto e com pressa. Deixou diversas marcas nos seus braços e pernas. Acordou sangrando com uma mordida no seio. Estava com o vestido todo rasgado, jogada num chão gelado, com um monstro de cerca de 40 anos, roupas sujas, mãos cascudas e grossas que tapavam sua boca com força. Se você gritar eu te mato. Tinha bom hálito. Hortelã. Ele mordia, dava tapas, transava com raiva, com dor, dominando-a, deixando-a sem alternativas. Devem ter ficado por ali cerca de 30 minutos, mas pareciam dias. Ele a pôs de quatro, meteu o pinto onde quis. Ela não conseguiu gritar, não conseguiu relutar, não conseguiu nada, só gozar. Ficou jogada e molhada no chão do banco, coberta de hematomas e de sangue pisado. Já de pé, enquanto o homem fechava o zíper da calça, virou-a em sua direção com o pé direito e cuspiu no seu rosto. Um pedaço de carne, apenas um pedaço de carne. E saiu.

Ela ficou em choque. Pedaço de carne. Apenas um pedaço de carne. Aquela voz, aquela frase. Pensou milhões de vezes antes de procurar a polícia. Não sabia se queria simplesmente apagar essa noite de sua memória, talvez não quisesse dividir isso com ninguém. Teve medo e pesadelos, mas superou alguns depois de dias e foi à delegacia. Narrou aquela noite com o máximo de detalhes que conseguiu. Era a quarta vítima do delinqüente que havia sido pego pela polícia naquela manhã. Poderia reconhecê-lo? Claro que sim.

Ainda tinha marcas no corpo daquela noite. Foram colocados frente a frente, com dois policiais robustos segurando o estuprador. Trocaram olhares e ela começou a chorar, balbuciando sim por entre soluços. Olha, a gente pode segurar ele pra senhora descontar um pouco da raiva. Ele tá algemado. É mesmo? Claro, claro. Ela olhou fundo nos olhos daquele homem que sequer sabia o nome, lembrando dos detalhes daquela noite. Cada toque, cada agressão, cada pedaço de abuso, o hálito de hortelã. Ajoelhou na sua frente e abaixou suas calças. Chupou seu pinto como se fosse a última coisa a fazer no mundo. Os policias, perplexos, não esboçaram nenhuma reação. Duas interrogações, de pé, observando a cena. Terminando o serviço, Melissa, com algum esperma no rosto, ainda de joelhos aos pés do confuso porém satisfeito agressor de outrora, pediu-o em casamento. Nunca gozara daquele jeito nesses 34 anos de vida morna.

Foi uma cerimônia simples.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Gente...

Quem olha de onde veio,
por mais que veja vitória,
ainda está olhando pra trás.
Enxerga o que hoje é história
e deveria estar na memória.
Não muda, não cria, não faz.
Se perde no próprio passado.

Mas quem olha por onde anda
sabe quem vai ao seu lado.
Observa direito o perigo,
não chama qualquer um de amigo,
vive desconfiado.
Defende. Protege. Desvia.
Talvez, quem sabe, faria.

Mas tem gente que erra feio,
tropeçando, esbarrando e caindo,
levanta sangrando e sorrindo,
pois sabe de onde veio
e do seu caminho não sai.
Insiste, não desiste,
e mesmo com tanto dedo em riste,
não se engana, não se trai.
Não olha por onde anda
mas olha pra onde vai.

sábado, 28 de julho de 2007

Tela em branco

Depois de tirar a poeira
Ainda, sem eira nem beira
Retire também a moldura
Desenhe o que quer que você queira
Brinque com a tela, pura
Faça do quadro uma vida
sem raiva, sem amargura
Mais bela, mais colorida
Seja com lápis de cor
Que seja com tinta ou giz
Mas com sonho, carinho e amor
E diga ao final: "Eu fiz"

*Inspirado nessas palavras de Scarlet Sartori, de quem sou grande fã. Beijos pra você, meu anjo!

sábado, 21 de julho de 2007

Entrevista de emprego

Depois de quatro dinâmicas de grupo, duas entrevistas, um exame psicotécnico e um teste de Q.I., a seleção estava quase completa. Somente dois gladiadores, dos 12700 currículos apresentados, sobreviveram ao ataque afunilador das feras. E agora eles estavam prontos para se enfrentar, cara a cara, no ringue.

A tensão no ar, de tão evidente, era sufocante. O contato visual era evitado ao máximo. A cadeira de couro velha rasgada, com aquela ponta de ferro pequena que existe só pra "massagear" o ossinho da bunda transformava os segundos em minutos. Os olhos, quando não voltados ao relógio de pulso, varriam a sala em busca de distração. Não se via sequer um quadro, um repouso para aquele creme entediante da parede que, quando muito, trazia uma pequena janela que contemplava a vista do coração da cidade: Brás!

No canto escuro estava Wagner Nogueira, 38 anos, 17 anos de experiência em marketing de serviços, com MBA no exterior, ex-diretor do departamento de inteligência corporativa da maior montadora de veículos do país. No canto claro, ao lado do bebedouro (sem água, por sinal), víamos Joaquim dos Santos Oliveira, com seus 36 anos, Pós-Doutorado em Comunicação Mercadológica, 7 livros de negócios publicados e ex gerente geral do maior portal de internet do Brasil. Era um duelo de titãs onde ambos tinham uma certeza: é matar ou morrer.

Os dois foram chamados para a sala do outro lado do corredor ao mesmo tempo, para surpresa de ambos. Entraram na salinha sem janelas, cuja mesa era de madeira com algumas farpinhas que atrapalhavam a concentração de qualquer um, cadeiras ainda mais desconfortáveis e uma figura nada simpática. Sentaram, duelaram, se venderam. Meia hora depois, já exaustos da batalha que parecia interminável, veio a notícia que nenhum deles esperava:

- Eu gostaria de dizer que - o discurso era intercalado por tosses e pigarros profundos - nós estaremos disponibilizando oportunidade a vocês dois. Vocês podem começar segunda feira às oito. Por enquanto não terão carteira assinada e, após 90 dias, caso tenham tido um bom desempenho, assinamos contrato. A remuneração inicial é de 2 salários mínimos mais 1% de comissão sobre cada venda. De acordo?

Após os dois "Sim" emocionados, todos trocaram apertos de mão e se despediram. Ao sair do campo de batalha, ambos vivos e com ótimas perspectivas de futuro, os lutadores se entreolharam e Wagner, aproveitando o momento, resolveu então quebrar o gelo com o mais
novo colega:

- É meu amigo! E tem gente que ainda reclama de desemprego em São Paulo... Pode???

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Desse Brasil que canta e é feliz...

Salve povo!

Sei que alguns de vocês aparecem por aqui de vez em quando. E vocês, que já me visitam há algum tempo, sabem que eu não costumo escrever textos engajados, criticar a situação da política no país, nada disso. Mas parece que agora ninguém mais consegue andar de avião por aqui. O negócio tá ficando sério...

Inclusive eu ouvi dizer que o ministério público quer fechar o aeroporto de congonhas. Parece que tem alguma coisa errada por lá. Mas isso não é problema. Nosso ministério público e seu sensor aranha estão no caso. Bastou uma amostra simultânea em todos os canais de televisão do país da manchete "180 mortos no maior acidente da aviação civil brasileira" que lá estavam eles, prontos pra resolver o problema. Falando em canais de televisão, alguém notou algum deles tentando jogar a culpa no piloto ou no avião?

Aliás, esse o problema do Brasil. A gente só consegue alguém pra (fingir que vai) cuidar do problema com pelo menos umas 50 vítimas. Ou algo hediondo. Aí a população se inflama, revolta, abre os olhos, grita o nome de um mártir, ergue bandeiras. Criam musiquinhas, alguém lança um CD. O foda é que depois começa o Big Brother e todo mundo perde o fio da meada.

Mas ainda bem que, como sempre, temos alguém pra cuidar do problema. "Relaxa e goza". É simples. Como é que ninguém pensou nisso antes? Afinal, no país da bunda, do carnaval, da prostituição infantil, alguém deveria ter tido essa idéia faz tempo... É esse o brilhantismo dos nossos ministros. É por isso que eles estão lá!

Nem mesmo o futebol escapa. Nem a nossa canarinho. Nem a sagrada camisa 10. Nada. Nossa seleção, que trouxe o Caneco para terras tupiniquins em 1994, numa das finais mais emocionantes da história do futebol, não é mais tratada com o respeito de outrora. Em épocas áureas eles entravam nesse país trazendo alguns dólares acima do limite permitido de entrada de mercadorias. O fiscal que ousasse se opor era queimado em preça pública. Mas enfim, eram heróis! Agora até nossos jogadores (lê-se volantes), os protetores do nosso único legado, até eles têm que enfrentar o "delayed", o "atraso", o milton neves e o "estamos sem sistema". Não estão mais acima da lei e dos limites de um mero normal contribuinte. Por isso que ninguém joga mais com aquela garra. Não é por dinheiro. Nosso futebol perder o glamour, o status. Sabe quem foi eleito prefeito de Buenos Aires? O presidente do Boca Júniors...

Eu só espero que consigam dar um jeito no Brasilzão antes que sejam feitas mais vítimas da incompetência e do despreparo de nossas autoridades, governantes, líderes e síndicos. Sei também que, quando isso acontecer, a mídia estará lá para fazer seu papel de maneira muito equilibrada, informativa e transparente - e não?

Ah, e torço também pra que o corinthians não feche as portas antes de eu ter um filho... Ia ser difícil explicar...